Amor – Milena Mendes

A conversa continua com a primeira convidada da segunda temporada.
Desta vez, abrimos espaço para o Amor e o quão importante é aprender a senti-lo, a sê-lo.
E tal como a Milena diz: “Acredito muito no amor e se olharmos bem, ele está à nossa volta. Não só nas nossas relações, assim como em pequenas coisas, muito simples. E quando o deixamos entrar, as coisas acontecem, a magia acontece.”

Filmagem: Joana Patrício – The Blue Dreamer

Produção e Edição: Sara Rica – Raiz de Portugal

PERGUNTA #819

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“A minha personalidade (INFP) é definida por ser uma pessoa sonhadora, a maior parte do tempo até de olhos abertos, dá-me, “ainda”, esperança de renovar dia a dia a vontade de ser feliz. Sempre fui uma pessoa tímida, mas conseguia levantar-me, até que um dia sem pré-aviso, a minha primeira crise de pânico confinou-me ao que antes era um mundo por explorar, apenas à minha mente complicada. O que antes conseguia disfarçar com aventuras com amigos, amores conquistados e perdidos… enfim, liberdade, ficava agora preso à minha mente, os meus pensamentos não voltaram a ter espaço para fluir livremente. Ansiedade social com Agorafobia, foi o nome dado aquele episódio terrível pelo que passei, quatro pequenas palavras com tanto impacto. Nada foi igual a partir desse dia, aos poucos fui-me isolando, muitos amigos deixaram de o ser, a confiança da minha família em mim foi diminuindo, o amor próprio era cada vez menos, e mais importante de tudo, perdi o amor, não por essa mulher em especial, mas porque nunca mais consegui sentir amor, amor verdadeiro por nenhuma outra mulher, perdi a capacidade para amar.
Já tive algumas namoradas depois disso, mas não consegui sentir mais do que uma bonita amizade. Eu que sempre senti necessidade de ter esse sentimento dentro de mim. Muitas vezes quando não tinha ninguém, fantasiava, mesmo sabendo que seria impossível, apenas para sentir amor por alguém, porque isso fazia-me sentir vivo, e dava-me uma razão para viver. Com a perda dessa capacidade de amar, juntando os meus medos e ansiedades, tudo começou a correr mal na minha vida, como que de uma maldição se tratasse. Para conseguir suportar a minha ansiedade, comecei a beber e a tomar drogas, tornei-me um adito, o que me levou nos últimos 3 anos a uma comunidade de desintoxicação, com algumas recaídas e novas tentativas de reabilitação. Antes disso, essa adição levou-me à situação de “Sem-abrigo” durante cerca de dois anos. Acredita que é uma situação dura e que nos deita completamente abaixo, muitas vezes pensei em suicídio, por isso hoje tenho grande respeito por quem está na rua e sempre que posso, ajudo. Mais recentemente, uma nova luta, desta vez contra o cancro no testículo, fui obrigado a retirar o testículo, e com a quimioterapia parece que entrou em remissão. Apesar de todo o sofrimento, esta experiência tornou-me num ser humano mais sensível, não só com os “sem abrigo”, mas também a outras causas, como o ambiente, adorava um dia poder fazer parte de um projecto numa eco-vila, pois não me adapto a esta sociedade mesquinha, trouxe-me também a fome de conhecimento, hoje em dia devoro aprendizagem de certos temas que eu gosto, e até de outros que não gosto, temas como auto conhecimento, e especialmente os grandes mistérios da vida e as respostas ao “porque estamos aqui”, fenómeno OVNI, etc…
Quero dizer com isto que gosto mais de quem sou depois daquela provação toda. A tristeza que que sinto, deve-se à falta de amigos, amigos verdadeiros, mas essencialmente a ainda não ter encontrado “a tal”, aquela que me vai fazer sentir novamente aquele sentimento lindo, que é amar alguém de verdade. Não sei se me entende, mas ultimamente tenho sentido falta de sofrer. Não que eu seja masoquista, não é isso, sinto falta do que causa o mais saboroso dos sofrimentos. Falando claro, sinto falta de me apaixonar. Sinto falta de fazer coisas idiotas, ilógicas, de ter a vista eclipsada pelo sentimento. Sinto falta de sonhar um futuro improvável, com a certeza infantil que somente os apaixonados têm. Sinto falta de beijar. Pois um beijo sem sentimentos não passa de um roçar de lábios. Sinto falta de ser sofridamente feliz. Não sei exactamente onde perdi a capacidade de me apaixonar, acho que fui deixando um pedaço dela em cada boca em que procurei tal sentimento, e não achei. É como se tivesse fatigado meus sentimentos através do abuso dos sentidos. Tornei-me insatisfeito, onde nada, nem ninguém, pode me completar. Fiquei vazio. E agora sinto esse vazio a sugar as outras alegrias. Sinto uma falta de sentido, uma falta de propósito, como se em cada conquista viesse embutida uma derrota. Talvez o sentimento esteja morrendo no mundo em que vivemos. Parece que as emoções foram guardadas, e os corações foram trocados por processadores, precisos e frios. É como se amor já não fosse arte, e sim ciência. Mas pensando bem, não acredito nisso. Quanto mais nos protegemos por fora, mais frágil se mantém nosso interior. Quando falamos de paixão, somos tão fracos, frívolos, emotivos e tolos quanto foram todos nossos antepassados. Ainda somos pessoas, e isso não muda. A paixão está ai, em algum lugar. Sim, ela não é fácil de encontrar, nunca foi, não seria paixão se fosse fácil. Mas ela vai aparecer, não quando eu deseje, nem quando eu precise, mas quando simplesmente e inexplicavelmente acontecer. Enquanto isso continuo a viver, procurando e perdendo, andando e tropeçando, mas sempre acreditando. É como se amor já não fosse arte, e sim ciência.

Porque é que não tenho direito a ser feliz, e conseguir seguir os meus sonhos?”

Vazio, Sensibilidade e Medicinas da Amazónia – Milena Mendes

Milena Mendes é a primeira convidada da 2ª temporada do céu pode esperar, vamos só ali perguntar às estrelas. Enquanto mulher, educadora social e terapeuta, Milena partilha o seu ponto de partida no que respeita ao início do seu caminho espiritual. Durante esta conversa, abrimos a compreensão ao despertar do vazio emocional, através da sensibilidade, e abrimos a coração à terra e às plantas da Amazónia. Uma oportunidade para conhecer, através de uma perspectiva sentida e vivencial, as riquezas que vivem dentro do coração de quem aprende a honrar a sua história de vida.

Filmagem: Joana PatrícioThe Blue Dreamer

Produção e Edição: Sara RicaRaiz de Portugal